sexta-feira, 20 de junho de 2008

Fecho os olhos

Fecho os olhos. Dou por mim num mundo criado naquele preciso momento (quantos mundos são criados sem darmos por isso?), parecem luzes que se acendem e apagam num remoinho intenso. A única forma de ver o que a cegueira permite. E a cegueira permite ver tantas coisas. Há quem fique mudo e cego e continue a ver tanto como todos nós, a diferença senhores, é que quem escolhe ver, vê mas não observa e quem não vê, às tantas observa atentamente.
Um dia destes hei-de fechar os olhos durante o resto da minha vida, hei-de andar a tropeçar no meu próprio pé, convencido de que não é meu, é de alguém, alguém que passou e eu não quis ver. Quem era? Algum lunático que mais à frente lhe faltou o coração para uma etapa com tanta inclinação e deu-se consigo a desistir.
- Não posso mais
Experimenta fechar os olhos. Cria o teu mundo neste universo (são tantos) e quando subires a colina e chegares ao cume, verificarás que uma montanha bem mais alta se ergueu ao teu lado, à espera daquele que alvo de calúnias e perversidades toda a vida, consiga alcançar o seu cume.
- Duvido que assim seja
Mas assim é, assim foi e assim será.
Fechem lá os olhos, não parece que um pintor ocupou instantaneamente a nossa mente e desenhou, com as cores mais estapafúrdias, num fundo preto, o que o seu pincel permitiu?
- Duvido que assim seja
Não duvides por favor, crê antes de mais que o precário fim dos dias chegará quando tu decidires e não decidas já, isso seria cometer suicídio.
- Não posso mais

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Relembra o futuro encarando o passado.


"Quando sentirem que o mundo parou, avancem sozinhos"

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Bucólica manhã

Bucólica manhã apaixonada
Resplandecente tristeza movimentada
Tempestade recuando atrasada.
Nuvens escuras e carregadas desaparecem,
Ao som da tua flauta emocionada!

Que momentos! Que paixão!
Ousas deter-me por aversão?
Ou quererás amar-me por compreensão?
Dúvidas que se dissipam rapidamente,
Ao som da tua flauta, pois então.

Ardor que caminhava subitamente,
Que crescia apressadamente,
Deixando-me todo dormente.
Abraços e beijos inalcançáveis,
Ao som da tua flauta, urgentemente!

Perplexo, sem chão por onde caminhar,
Nem um único passo conseguia dar!
Só precisava de acreditar,
Que estavas ao meu lado,
Ao som da tua flauta a suspirar!

Tudo ganhou sentido,
Sem grande alarido,
Voltei a aceitar o teu pedido!
Ultrapassei a minha depressão,

Ao som da tua flauta, endoidecido!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Acordarei?

Lá estava eu, o meu ser, o meu espírito dúbio esperando desesperadamente por uma conclusão que determinasse o porquê da minha existência. Lá estava eu no meu canto. Mudo, surdo, exausto, mas com a noção que recuperava rapidamente as minhas forças. Lutava dentro de mim com pontapés que se tornavam murros e murros que se tornavam simples contactos. Estava duro, imóvel, expelia sangue em todos os meus poros, mas não sentia a hemorragia nem conseguia estancá-la. Chorava compulsivamente, libertava paulatinamente tudo o que durante séculos me tinha atormentando. No entanto, pedia um novo corpo (desesperava), caía de joelhos uma vez, duas vezes, outra e outra...
Consegui finalmente fugir, sair daquele corpo agrilhoado a preconceitos e dogmas que me impediam, noite após noite, de viver em liberdade comigo mesmo. Percorri o mundo, mas voltei àquele quarto, tudo era tão simples, puro e bucólico. Seria mesmo preciso perder-me em horizontes inalcançáveis?
O corpo ainda continuava estendido, lívido e extenuado. Depois de ponderar, de percorrer o quarto no meio de uma intempérie criada pela falta de nuvens e pelo vento que não soprava, resolvi permanecer. Não poderia desejar a minha morte tão cedo. A missão que o destino me tinha reservado tinha de ser cumprida. Não poderia de forma alguma, chegar ao purgatório desmembrado e mutilado. Não fazia parte da minha condição de ser humano.
Aproximei-me de novo daquele corpo. Corpo sem alma nem espírito, não passa de um cadáver sem uma única memória que possa partilhar. É uma folha de papel que nunca chegou a ser folha, porque nunca foi escrita.
- Acorda
Um pressentimento, um presságio que se torna inútil mas ao mesmo tempo necessário. Acordarei. Que fazem falta aqueles que dormem acordados? Acordarei de um sono profundo sem um único sonho, sem uma única palavra. Vazio completo.
- Acorda
Agora tornava-se mais alto, mais majestoso. Acordarei quando o Mundo simultaneamente decidir acordar.

domingo, 11 de maio de 2008

Trabalho infantil? Não, obrigado.





Some things cost more than you realise.

Civilização

Uma mescla de indultos, papalvos e indigentes evoluem permanentemente para ocupar o patamar mais elevado da sociedade. Resta a nossa dignidade, a nossa confiança para lidar com o desrespeito ético e moral que é levado com a inconsideração e leviandade pelo comum dos cidadãos. Faltam martelos e estacas, faltam culatras e caçadeiras, faltam lutas e manifestações com o intuito de evitar a catacumba da nossa civilização.
É necessário abordar o Homem numa perspectiva diferente. A unidimensionalidade em que os cidadãos mergulharam chegou a um dos pontos mais críticos. O combate ainda está na mão do ser humano. No entanto, combatemos numa frente que não controlamos, mas que ajudámos a criar: a Natureza. Para além disto, confrontamo-nos com uma crise valorativa que não tem capacidade para detectar o problema. Será assim tão complicado?
Tenho reparado ao longo dos meus “pensamentos civilizacionais” que nós não funcionamos como seres humanos, mas como máquinas inseridas e controladas num impetuoso e magnificente sistema burocrático. Impedindo-nos de agir de acordo com os nossos princípios. Se os nossos princípios colocarem em causa de qualquer forma toda este sistema, somos fortemente castigados. Não nos abordam como gente.
Deixam-nos fatigados através do trabalho. Trabalho esse com o objectivo de enriquecer o Estado e a Civilização. Deixam-nos apavorados pela quantidade de notícias horrendas que passam diariamente nos “mass media”. Ocultam-nos a verdade através de campanhas mentirosas e exclusivamente propagandistas.
Amedrontar as pessoas, criando inimigos inexistentes, é uma boa forma de controlar a população. O medo é inimigo da acção. O objectivo subjacente a estas iniciativas é de criar um espírito de união em torno do Estado. O único capaz de salvar a nação.
Mas então que Estado é que queremos? Um Estado que propagande o sentimento do medo? Um Estado que falte à verdade?
É urgente abrir os olhos para a civilização Técnica Ocidental. É urgente colocar um ponto final neste constante retrocesso. É urgente expandir verdadeiramente a cultura e o saber. É urgente tomar posição, é urgente agir.
Se não foste educado desta forma, educa-te.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Segredava-lhe

Segredava-lhe ao ouvido bem alto:
- Mãe.
Respondia suavemente, o som desvanecia-se e demorava pelas escadas, pesados degraus, o soalho rangia com a força dos tamancos que se tornaram duros, imbuídos pela passagem gradual do tempo. Não sei bem se respondia. Perdi bastante cedo a minha mãe, deixei de ouvi-la, mas o som continuava suspenso no ar, procurando um ouvido. Os traços dela foram-se perdendo ao longo dos anos, apenas ficava uma imagem turva, lívida, sem importância alguma que ressoava nos cantos enfraquecidos da minha mente. Enfraquecidos porque necessitamos que as palavras encontrem os nossos ouvidos. Enfraquecidos porque já não estamos no andar de cima, não temos força para subir os degraus que se tornaram infinitos.
- Mãe.
Qual mãe qual quê. Já nem sei o que é ter uma mãe. Já não sei para que serve nem o que diz, nem as suas palavras quando jantávamos os dois sozinhos. Já nem sei se conversávamos futilmente, pendurados no silêncio das palavras, ou então silêncio profundo, nem palavras fúteis, nem nada. O nada existe? O nada não será a ausência de palavras, de sons, de objectos? Sozinhos, connosco no nosso canto divagando inutilmente através dos recantos mágicos da nossa memória. Grande parte da nossa memória é feita de imaginação, ligamos factos e acontecimentos que por si só não significam coisa alguma. E então criamos imagens irreais, surrealistas, dicotomias que deixam de ser contrastes e se relacionam alcançando a perfeição momentânea, esmorecendo-se logo de seguida num reboliço de nevoeiro que progressivamente nos invade.
Agora gritava:
- Pai.
Porque não o tenho, porque precisava dele. É algo que está entre nós e a morte. Passamos a ser nós na ponta da mesa. Velhinho grisalho, uma interrupção súbita da vida deixou-me isolado. Decididamente que a morte é uma puta.