domingo, 5 de outubro de 2008

Saudade

Arde incessante o meu coração
De tão cheio de solidão
Arde com fogo sem chama
No interior da multidão

Sem ninguém notar e eu imerso
Apago-me do universo
Ficam cinzas, espalha-se o fumo
Com vento de um só rumo

E quando chegar o fim
Alguém se irá lembrar de mim?
Ou tudo esquecido
Que fui tudo sem ter sido

Da luz brota escuridão
De saber que tudo em vão
Para quê esta luta
Se ninguém me pede perdão?

Sem pompa nem formalidade
Caiu em saudade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O Novelo

São recordações que me comovem
Como fios torcidos d’um novelo que se descosem
São lágrimas que deslizam
Com lembranças desgarradas que avisam
Quão solta anda esta mente jovem

Inúteis e supérfluas não serão de certeza
Colocadas por ordem de tristeza
As histórias passadas e vividas
Que deixaram marcas e dívidas
Num corpo imbuído em firmeza

Depois a vida vai passando
Mas as feridas vão ficando
Como cortes de navalha
Numa turbulenta e fatal batalha

Quanta melancolia tem o meu sorriso?
Ao tratar o passado que friso?
O novelo entorna-se e rebola quieto
E fico sem resposta a olhar o tecto

sábado, 27 de setembro de 2008

Q.C.A.C

Quando chegar aos cinquenta
Vou ter uma televisão
Que deixe de mostrar corrupção

Quando chegar aos cinquenta
Não vou ficar à espera
Da minha morte lenta

Quando chegar aos cinquenta
Vou-me desmontar
Nem uma peça irá sobrar

Quando chegar aos cinquenta
A minha alma vai engrandecer
Dos livros que não vou ler
Da saúde que não vou ter
E dos beijos que não vou receber

Quando chegar aos cinquenta
Vou andar mais devagar
Para te ficar a observar
O meu corpo vai ficar
Impávido e sereno a murmurar

Quando chegar aos cinquenta
O meu coração vai arder
E quando deixar de bater
Vou deixar de te entreter
E ficarás sozinha a entristecer

sexta-feira, 26 de setembro de 2008



Inteligência sem loucura, é como cigarro sem tabaco.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Quem Fez De Nós?

Quem fez de nós?
Quem criou tudo?
Quem deu e nada recebeu?
Quem fez levantar e permaneceu sentado?
Quem abriu os nosso olhos?
Quem iluminou e pintou?
Quem escreveu tudo sem ter escrito?
Quem manipulou o universo?
Quem começou a remar?
Quem construiu a canoa?
Quem fez de nós?

O outro quieto e eu a olhar
O único que via e resolvi não contar
Podia ser ilusão e não quis acreditar
Da vida até a morte um longo caminho
Por isso vou sozinho
Se me faltarem os pés, vou de joelhos
O que interessa é ir para não voltar
Cair torto e nu como viemos ao mundo
A cantar alto para ninguém escutar
Aquilo que vi ainda há pouco.
Ponto final nisto.

Parágrafo para começar
E eu ainda sem acreditar
Que foste tu que nos fizeste
Pergunta: Gostaste do que trouxeste?
Ninguém responde, porque tudo mudo

E eu não me calo, porque escrevo, agora em prosa porque de versos estou farto. Limita-me o espaço e eu preciso de espaço infinito, não mudo de linha sigo sempre em frente, nem olho para trás senão perigo de tombar e depois quem me ajuda?
Sou o único que fala, mas não me importo. Valho por muitos. Como disse ALA “Todos nós somos muitos” e eu acreditei. Todos nós somos muitos. Todos nós somos poucos para retribuir a quem nos criou. Por enquanto fico por aqui, porque se me adianto demais acaba-se o espaço e eu preciso dele infinito e eterno.

terça-feira, 23 de setembro de 2008



Mais vale a felicidade eterna do que o prazer momentâneo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Às Vezes Nem Quero

Eu ontem caí e esqueci-me de levantar. Ainda hoje continuo caído precisamente no mesmo sítio. Nem um passo para trás nem um para diante. Nada. Queria ficar ali a espreguiçar-me e a sentir-me vivo. Por acaso é das coisas que menos tenho sentido, vida. Às vezes apetece-me fechar os olhos e quando os abrir ser amanhã ou outro dia qualquer, este é que não. Às vezes apetece-me viver o amanhã, começar de novo a partir do futuro. Reviver momentos que me empurraram para ser quem sou. O problema crucial é que para além de não ter um claro ponto de vista (nem claro nem escuro) sobre quem sou, não sei se fui vagueando em vez de aos tropeções. Não fui empurrado de certeza, vagueei até encontrar um caminho cheio de ambiguidades.
Às vezes, quase sempre, não quero atender o telefone. Quero que ele se aborreça a tocar para os ares, a ficar mudo de repente como se finalmente percebesse que ninguém o quer atender. Mas rezo para que depois não comece a lacrimejar. Mais barulho portanto e eu enraivecido, deixo escapar a mão e atendo. Um blá blá blá do outro lado que não entendo e sinceramente nem quero entender. Atendi sem querer. Olhei para o espelho meio de lado, como se olhasse para outra pessoa. Desliguei prontamente com monossílabos incompreensíveis para mim, mas que decerto compreendidos do outro lado, porque desligaram sem mais demoras. Desliguei-o da ficha, queria ver se um blá blá blá sem intenção voltaria a incomodar-me. Na realidade passaram-se segundos, minutos, horas sem que aquele horroroso toque impertinente e inadequado voltasse a transformar o silêncio tão natural, num ruído ensurdecedor.
Às vezes, quando somos crianças, temos sonhos praticamente inalcançáveis (mas não impossíveis) que gostaríamos certamente que fossem bem sucedidos. Esquecemos no entanto, por ignorância óbvia da falta de maturidade, do esforço que é necessário despender para o conseguir alcançar. Finalmente, numa fase mais avançada da nossa vida, acabamos por compreender as montanhas de trabalho que são necessárias. Como consequência directa, entristecemos ao som de qualquer música que diga precisamente o contrário. Depois modificamos rapidamente o patamar do nosso sonho e colocamo-lo um pouco mais abaixo na escala da possibilidade. De um momento para o outro, tudo parece fácil e a decisão está tomada. Amanhã será o primeiro dia na busca incessante por esse sonho.
Eu pelo menos tenho todo o tempo do mundo.